O que as eleições de 2020 ensinaram pra direita no Brasil e em nosso estado

Agora que as eleições acabaram e temos tudo definido é hora de avaliar e refletir sobre os resultados as consequências para a direita em Sergipe nos próximos anos e os reflexos mais imediatos para a eleição de 2022. Também é necessário criar estratégias para que o resultado de agora não se repita nos próximos anos, não só aqui como em outros estados do país. Afinal, não foi apenas em Aracaju que a direita fracassou. São Paulo teve um segundo turno entre um candidato de centro esquerda, Bruno Covas (PSDB), e outro de extrema esquerda, Guilherme Boulos (PSOL).

O primeiro fato a ser reconhecido por nós que compomos a direita em Sergipe, seja como lideranças de movimentos, ativistas, militantes, é reconhecer que o resultado dessas eleições não foi bom para nenhum dos grupos ou figuras que se colocaram durante a campanha como líderes da direita no estado. Os grupos que de alguma forma tentam descredibilizar o trabalho de outros pelo resultado não se olham no espelho ou são aqueles metidos a intelectuais de Instagram que não estiveram no processo eleitoral e geralmente só fazem criticar, sem em nada agregar ou contribuir para o crescimento da própria direita.

Partindo desse princípio de que todos fracassaram no objetivo de eleger um representante podemos traçar os caminhos que queremos seguir: ou simplesmente colocamos a culpa no sistema (na fraude que pode ter ocorrido, já que o sistema eleitoral brasileiro não é auditável); no eleitor que vota errado; ou levamos esse resultado como aprendizado e começamos a avaliar onde erramos.

Se optarmos por terceirizar a culpa, continuaremos nessa luta desgastante e nada construtiva contra uma realidade posta que não muda se apenas ficarmos reclamando. Mas, se seguirmos o caminho posto a nossa frente e decidirmos por avaliar e corrigir nossos erros, poderemos planejar, definir ações e estratégias que tornarão possível fazer a direita crescer e mudar a realidade política em nosso estado. A partir da derrota, em uma batalha, podemos construir a vitória da guerra.

Infelizmente, muitos de nós avaliamos de forma errada essas eleições, inclusive eu. Acreditamos que devido ao fato de Bolsonaro ter conseguido 140 mil votos, conseguiríamos canalizar grande parte deles e haveria votos suficientes para eleger tantos candidatos a vereador. Acreditamos que o papel das redes sociais, fundamental nas eleições de 2018, fosse se repetir da mesma forma agora em 2020. Acreditamos que o apoio de Bolsonaro e de seus aliados políticos, com visibilidade nacional, seriam determinantes para a eleição de representantes na direita local.

Nada disso se concretizou. O que vimos foi a soma dos votos dados a todos os candidatos a vereador de direita bolsonarista não conseguindo atingir a votação dada ao candidato a vereador de esquerda mais votado. O candidato a vereador apoiado por Bolsonaro em Aracaju não atingiu 1 mil votos.

Um novo fator, que foi o fim das coligações proporcionais, também contribuiu para que os votos ficassem mais dispersos. Os partidos colocaram o máximo de candidatos que conseguiram para poderem atingir o coeficiente. Com mais de 700 nomes para vereador, muita gente nessa eleição tinha um parente, amigo ou conhecido do trabalho que estava como candidato. Isso prejudicou não só a direita como também candidatos tradicionais na política.

Aí você pode estar se perguntando: mas por que a esquerda não foi prejudicada com isso?

A resposta para essa pergunta eu resumo em 2 fatores: a esquerda, diferente da direita, conseguiu construir uma base ideológica que vota sempre com o partido e com a ideia. Além disso, a mentalidade esquerdista é coletivista, priorizando mais o interesse coletivo do que o individual.

E é por isso que vimos – e eu vivenciei isso – muitas pessoas que votaram em Bolsonaro ou mesmo se declaram de direita votando em pessoas por amizade ou em gratidão a um favor recebido, pouco importando a ideologia do candidato. Essa é uma característica das eleições para vereador, mas que foi fundamental para a dispersão dos votos do eleitor bolsonarista.

E isso não é uma crítica apenas ao eleitor, mas também a nós, líderes de movimento: precisamos construir o voto ideológico na direita. Precisamos melhorar a forma de apresentar nosso discurso e nossas pautas para a população. E quando digo isso, não me refiro apenas ao voto pela indicação de uma figura de visibilidade nacional, mas um voto baseado nas pautas, nas ideias e na coerência do candidato.

Mesmo os bolsonaristas vendo que o país só não está melhor porque temos um congresso fisiológico e esquerdista, ainda assim muitos votaram em Edvaldo Nogueira, do PDT, partido de Ciro Gomes e oposição ao presidente.

É dever nosso buscar formar e orientar aqueles que nos seguem no sentido de entenderem que o progresso atualmente vivido no Brasil é graças a um projeto de direita estar no poder, que o fato de não termos um caso de corrupção na esfera federal é porque o governo Bolsonaro é menos estatizante, e que ‘menos Estado’ implica necessariamente em menos corrupção. Diferente dos socialistas, nós não precisamos mentir para mostrar que estamos certos. Temos os fatos e a verdade do nosso lado.

Temos também que aproximar nossas ideias e pautas da realidade da população. Isso foi conseguido em 2018, em relação a pauta da segurança. Precisamos trazer isso para as outras áreas. Nada de falar em “Voucher”, mas sim em oportunidade para o filho do pobre estudar na escola do filho do rico – isso o candidato Rodrigo Valadares soube traduzir muito bem em alguns momentos de sua campanha; em liberdade para ter seu comércio e poder vender seus produtos sem que seja perseguido por fiscais ou receba cobranças de taxas abusivas.

Só assim conseguiremos construir uma base que vai votar sempre em candidatos de direita, independente do mandato. Algo que ocorre nos EUA, onde o eleitor de direita vota no Partido Republicano – partido conservador naquele país – para presidente, senador, deputado e qualquer outro cargo em que houver representante. Ou seja: o voto é muito mais no partido, nas ideias e propostas que ele representa – e nos benefícios advindos da aplicação dos mesmos –, do que no candidato em si.

E isso nos leva ao fator mais importante nessa equação: a direita precisa de um partido político. Apesar das divergências existentes entre os diversos grupos de direita, não só aqui, como no Brasil. Se todos estiverem num mesmo partido, as chances de conseguirmos eleger nomes que representem nossas ideias é muito maior. E o fim das coligações proporcionais beneficia para que isso aconteça.

É necessário que o presidente Bolsonaro, maior liderança da direita política do país, defina um partido para que a direita possa estar em 2022. O Aliança Pelo Brasil, sigla que está sendo formada, seria o ideal, mas temos que reconhecer que o partido pode não ser criado até as eleições de 2022, devido a burocracia imposta pela legislação eleitoral e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Portanto, é necessário um plano B.

Falando um pouco da disputa majoritária, o cenário foi um pouco diferente, mas a divisão de votos da direita, entre quatro candidatos, também impediu que um deles chegasse ao segundo turno. E essa é outra coisa que a direita precisa aprender para as próximas eleições: não adianta ficar buscando um candidato ideal, quando ele sequer existe. Grande parte da direita tem rejeitado o nome de Bolsonaro, por ser o tiozão do bar, e muitos o considerarem um populista.

Mas ele é a figura que conseguiu furar a nossa bolha e teve votos do chamado “afegão médio”, tornando possível sua eleição. Ou seja: ele é a figura que tem a legitimidade para ser liderança e, diferente de um Haddad, dele podemos cobrar e ser ouvidos.

Da mesma forma, em Aracaju, Rodrigo Valadares – candidato pelo PTB – foi a figura no campo da direita que se destacou e conseguiu furar a bolha, ganhando votos do eleitorado médio. Apesar do seu crescimento, o eleitorado de direita não soube fazer o chamado voto útil e acabou dividindo votos a ponto de não conseguir colocar nem Rodrigo nem outro candidato no segundo turno.

Após o primeiro turno, os partidos (DEM e Avante) de dois destes quatro candidatos colocados no campo da direita apoiaram a reeleição de Edvaldo. Então, do que adiantou toda a crítica feita ao candidato que realmente tinha chances? Não olharam a sujeira embaixo do próprio tapete, o histórico desses partidos? O candidato do Avante teve seu histórico errático e incoerente encoberto e suplantado por apoios de Brasília.

Com isso, muitos eleitores votaram com base nessa recomendação, deixando as ideias, as propostas e a viabilidade do candidato de lado. Por outro lado, mesmo não sendo consenso na esquerda, esta viu em Boulos o candidato viável em São Paulo e focou o voto no mesmo, levando-o ao segundo turno.

Tudo isso nos serve de lição. A direita no Brasil ainda é jovem, nasceu para valer em meados de 2013, e em 2018 já conseguiu fazer o Presidente da República. Como bem diz Olavo de Carvalho: foi uma ejaculação precoce, mas que salvou o nosso país de hoje ser uma Argentina ou Venezuela.

Fizemos o processo inverso: conseguimos o poder antes de construir a base para sustentá-lo, e agora estamos correndo o risco de perdê-lo, porque estamos errando nesse processo de construção. Ainda há tempo de corrigir, mas precisamos ser céleres e eficazes nesse processo de formação de base. Ou é isso ou corremos o risco de ter novamente a esquerda no poder, ou um governo de direita cada vez mais dominado pelo Centrão fisiológico.

Flávio Oliveira, fundador do Movimento Direita Sergipana

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