Distopias – delírios da esquerda na ficção

De volta aos meus textos, após um certo recesso por falta de tempo, hoje falarei uma pouco sobre distopias. O que elas são e, de uma forma resumida, como foram representadas na literatura e no cinema.

Bom, mas o que é afinal uma distopia?

Em ficção, um enredo distópico é aquele que descreve, por antecipação, engenharias sociais que, apoiadas em mecanismos de controle dos pensamentos, comportamentos, e atitudes, dos seus membros, e em mecanismos de repressão da dissidência, garantem a unanimidade totalitária. A ação dos enredos distópicos na maioria das vezes serve como avisos contra delírios de engenheiros sociais que imaginam um “mundo melhor”. É inevitável associar isso ao pensamento de esquerda, já que ao longo de nossa história, são sempre os esquerdistas a imaginar um mundo não livre, mas totalmente planejado e sempre se utilizando do estratagema de que “é para o nosso bem…”

Em vista disso, é até possível estabelecer uma relação entre distopia e utopia:

Utopia-or-Dystopia

Utopia: tem como significado mais comum a ideia de civilização ideal, imaginária, fantástica. O utopismo é um modo absurdamente otimista de ver as coisas do jeito que gostaríamos que elas fossem. Um paradoxo é que utopias sempre culminam em distopias.

Distopia: é uma ficção cujo valor representa a antítese da utopia ou promove a vivência em uma “utopia negativa”. As distopias são geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo, por controle opressivo da sociedade. Seu axioma  é ter a teoria utópica usada como ferramenta de controle do Estado.

Distopias na literatura e no cinema:

Bom, a quantidade de distopias trazidas para nossa cultura literária e cinematográfica é enorme, não caberia num artigo singelo como esse, seria preciso um livro dedicado exclusivamente sobre o assunto (quem sabe um dia…). Mas para o objetivo desse texto, posso citar alguns exemplos bastante conhecidos do público em geral. Vejamos então:

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – 1932 – Aldous Huxley

BraveNewWorld_FirstEdition

Em “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, aquilo que aparentemente é um paraíso é na verdade um inferno onde o Homem foi desumanizado. A ciência, a tecnologia, e a organização social ao invés de estarem a serviço do ser humano, escravizaram-no, sem que o Homem tenha consciência disso.  Na sociedade imaginada por Huxley, não existem casais nem a geração através da gravidez. Tal como a esquerda prega, o conceito de família é abolido. Os bebês são gerados e alimentados em incubadoras, e separados por castas. O Homem é produzido em série, consoante as necessidades, dividido em cinco castas: alfa, beta, gama, delta, e ípsilon. Então, o conceito de Amor como um sentimento restrito e monogâmico, tão criticado pela esquerda, também não existe, pois como a sociedade retratada no livro representa um extremo da vida orientada ao trabalho e produção: qualquer coisa que desestabilize o indivíduo, atrapalhando assim a sua produtividade, é abolida. O coletivismo prevalece. As pessoas praticam relações sexuais entre si como uma mera forma de lazer, vivendo sob o lema hedonista: “cada um pertence a todos”, o que pode ser visto como uma visão extrema do coletivismo socialista. Nessa sociedade as pessoas são induzidas a tomar uma droga chamada SOMA que as leva a uma falsa felicidade e controle da mente.

CÂNTICO – 1938 – Ayn Rand

Anthem_book_cover

Cântico é a história da revolta de um indivíduo contra uma sociedade totalitária e coletivista. “Igualdade 7-2521” é um jovem sedento por entender “a Ciência das Coisas”. No entanto, ele vive num futuro distópico, desolado, no qual o pensamento independente é um crime e a ciência e a tecnologia regressaram ao nível mais primário aonde até mesmo a eletricidade foi abolida regredindo a humanidade ao tempo das velas.

Todas as expressões de individualismo foram suprimidas: propriedades privadas não existem mais, preferências individuais são condenadas como pecados e os relacionamentos românticos estão proibidos. A obediência à coletividade está tão profundamente enraizada que até a palavra “eu” foi extinta da linguagem (o livro é todo falado em 3ª pessoa, mesmo quando o discurso é em 1ª pessoa). Para ter uma ideia de como esse livro da Ayn Rand é fantástico, mas infelizmente foi ofuscado por outros sucessos da autora como “A Nascente” e “Revolta de Atlas”, deixo abaixo um pequeno trailer produzido de forma independente por um fã que resume o enredo do livro:

1984 – 1949 – George Orwell

1984

Apesar de ter sido um esquerdista declarado, no livro “1984”, George Orwell relata a vida num estado totalitário, onipresente e onipotente. Ninguém nem nenhuma atividade escapa ao controle do Grande Irmão (Big Brother). O Grande Irmão vigia a todos através de um aparelho semelhante a uma televisão que permite fazer a propaganda do partido e controlar as atividades dos cidadãos. Tal como em muitas ditaduras comunistas, a única coisa vista nessa espécie de TV Estatal é a propaganda do partido único.

No enredo do livro, o mundo encontra-se dividido em três blocos, ou super-estados: a Oceânia, Eurásia, e Lestásia. A Oceânia está sempre em guerra, ora com a Lestásia, ora com a Eurásia; se está em guerra com um, está aliada a outro. Sempre que o “parceiro” de guerra muda, todos os registros passados e presentes mudam, os jornais são reescritos, os livros são reescritos, a História é reescrita; se, por exemplo, estiver em guerra com a Lestásia, então sempre esteve em guerra com a Lestásia, o que lembra em muito a Coreia do Norte que divulga para seus cidadãos (isolados) informações falsas sobre o que ocorre no mundo exterior. A História então é assim: um eterno presente, que retira ao Homem a capacidade de reflexão sobre o mundo.

Outro mecanismo para diminuir e controlar a capacidade de reflexão do Homem é a chamada Novilíngua – uma língua falada por todos, ao qual vão sendo tirado todos os dias centenas ou milhares de vocábulos, com o objetivo de diminuir a capacidade de pensar, tal como nossa constante Reforma Ortográfica Brasileira, que com tantas mudanças nos confunde –  não pense que ela parou, até outro dia um político de esquerda tinha em mente mudar por exemplo palavras como: “chapéu” e “guitarra”, para “xapeu” e “gitara”.

Mas de volta a “1984”, a responsabilidade por estas atividades cabe ao Ministério da Verdade (irônico). Além do Ministério da Verdade, existem outros três Ministérios, que abaixo do Grande Irmão, na hierarquia desta sociedade, a controlam totalmente: O Ministério da Paz, que se ocupava da guerra. O Ministério do Amor, que garantia a lei e a ordem através da força. E o Ministério da Riqueza, responsável pelos assuntos econômicos.

Toda a sociedade é regida pelos três slogans, ou lemas, do Partido Único: Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força. As atividades de todos os cidadãos são controladas pelos mecanismos de vigilância do Grande Irmão, pelos próprios cidadãos, que se controlam uns aos outros, individualmente ou organizados em patrulhas (tal como as milícias chavistas e castristas em seus respectivos países); porém, a mais importante das forças de vigilância é a Polícia do Pensamento. Controlando o pensamento, controla-se quase tudo.

FARENHEIT 451 – 1953 – Ray Bradbury

fahrenheit-451

Fahrenheit 451 apresenta-nos uma sociedade futura em que todos os livros serão queimados, atividade pela qual são responsáveis os “bombeiros” que não são mais chamados para apagar o fogo mas para atear. Guy Montag, o personagem principal, é um desses bombeiros; ao longo do tempo vai guardando exemplares para si, mas nunca ganha coragem para os ler, o que poderia denunciá-lo.

Nesta sociedade onde os livros são proibidos as opiniões próprias são consideradas anti-sociais. Acabar com os livros é uma forma de suprimir o pensamento crítico. O título, Fahrenheit 451 (233 graus Celsius.), refere-se à temperatura a que o papel dos livros incendeiam. O próprio autor, amante dos livros, relatou que a sua obra não se trata de uma crítica à censura, mas de como a televisão destrói o interesse pela leitura. Contudo, os meios de controle estatal mostrados no livro, se assemelham às práticas por exemplo do Khmer Vermelho no Camboja ou da Juventude Maoista na Revolução Cultural da China.

PLANETA DOS MACACOS – 1963 – Pierre Boulle

Planet_of_the_Apes_book_cover

Os principais eventos do livro são contados a partir de uma história paralela, na qual Jinn e Phillys, um casal, encontram uma mensagem numa garrafa à deriva no espaço. A mensagem dentro da garrafa é o diário de bordo do astronauta Ulysse Mérou, que acredita ser o último ser humano restante no universo, mas escreveu a sua história na esperança de que alguém a ache.

O escritor da mensagem, o protagonista, começa por explicar que era amigo do Professor Antelle, um gênio cientista da Terra, que inventou uma espaçonave sofisticada que podia viajar em velocidade próxima à da luz. O protagonista, o professor e um médico chamado Levain decolam a nave para explorar o espaço sideral. Viajam até ao sistema solar mais próximo em que o professor teoriza ser capaz de abrigar vida, destino esse que lhes custará 350 anos para atingir. Devido à dilatação do tempo, contudo, a viagem parecerá aos tripulantes durar somente dois anos.

Eles chegam ao distante sistema e descobrem lá haver um planeta muito similar à Terra. Logo encontram humanos primitivos. Eles espantam-se de ver um grupo de caçadores na floresta, consistindo de gorilas, orangotangos e chimpanzés usando armas e máquinas.

Num passado distante, o planeta era dominado por seres humanos, que construíram uma sociedade altamente tecnológica e escravizaram os macacos a trabalhos manuais penosos. Ao longo do tempo, os humanos tornaram-se mais e mais dependentes dos macacos, até serem tão desleixados e inábeis que caíram sob as mãos dos seus servos símios, decaindo ao estado em que Ulysses os encontrou.

O protagonista consegue escapar do planeta com Nova (uma humana primitiva e o seu filho recém-nascido), regressando à Terra na espaçonave do professor. Novamente, a viagem dura muitos séculos, mas os tripulantes da nave sentem-na como apenas alguns anos. Ao pousarem na Terra, mais de 700 anos depois da sua partida primeira, aterram nas cercanias da cidade de Paris. Contudo, uma vez fora da nave, o astronauta descobre que o planeta foi dominado por macacos inteligentes como os do planeta de onde acabara de fugir. Ele sai de volta ao espaço, escreve a sua história, põe na garrafa, e lança-a ao espaço para que alguém a encontre.

O livro conclui retornando ao casal que encontrou a garrafa, que se revelam macacos. Eles zombam da possibilidade de humanos terem algum dia sido avançados o suficiente para construir espaçonaves, e concluem que a história toda deva ser uma piada de alguém.

O mote para essa distopia é uma crítica ao hedonismo tão sonhado por Marx, em que se pressupunha que no futuro o proletariado, vivendo em um regime coletivista e altamente tecnológico, teria 100% do seu tempo livre para dedicar às artes, aos prazeres e ao ócio, sendo o trabalho um mero resquício do passado “explorador burguês”. Um contraponto por exemplo ao pensamento de Ayn Rand  que defendia que somente o trabalho duro leva o homem a superar os obstáculos da vida, desde os tempos remotos quando este resolveu sair das cavernas para construir a civilização. Vivendo no ócio, o natural seria voltar mesmo para as cavernas, tal como em a Revolta de Atlas (1957), da própria Ayn Rand.

A maioria das pessoas talvez nem saiba que “Planeta dos Macacos”, na verdade é um livro. O grande público conhece a história mais por suas adaptações ao cinema, somando 05 no total (fora um seriado pra TV de 1974 e uma série animada de 1975):

  • Planet of the Apes (1968)
  • Beneath the Planet of the Apes (1970)
  • Escape from the Planet of the Apes (1971)
  • Conquest of the Planet of the Apes (1972)
  • Battle for the Planet of the Apes (1973)

E ainda 03 remakes, com mais um a caminho para encerrar a trilogia iniciada com “A Origem”:

  • Planet of the Apes (2001)
  • Planeta dos Macacos: A Origem (2011)
  • Planeta dos Macacos: O Confronto (2014)

Bem, e já que estamos falando de cinema, com exceção de “Cântico” de Ayn Rand, todos as distopias que citei até agora foram lançadas inicialmente em livro, mas acabaram indo parar na telona também. Sendo assim, vamos ver alguns exemplos do cinema que não foram lançados em livro (ou pelo menos, não que eu saiba):

O DEMOLIDOR – 1993

 demolidor

Senhoras e senhores, sim ele mesmo, Sylvester Stallone. O filme  “O Demolidor” (não aquele dos quadrinhos) retrata muito bem o ideário politicamente correto da esquerda mundial:

– REPROGRAMAR A MENTE HUMANA PARA TORNÁ-LA MAIS “SENSÍVEL”. (alô Humaniza Redes?)

–  ALIMENTAÇÃO NÃO SAUDÁVEL, CARNE, BEBIDAS E CIGARROS E PALAVRÕES SÃO PROIBIDOS. (veganismo, vegetarianismo, discurso de ódio… lembra?)

– AS PESSOAS SÃO DEPENDENTES PSICOLÓGICOS QUE PRECISAM DE ELOGIOS DE UMA MÁQUINA PARA SE SENTIR BEM. (sabe aquele papo de “palavras machucam”?)

– POLICIAIS SÃO FRACOS. (lembra aquele papo de “desmilitarizar a PM?)

– SEXO É VIRTUAL (meu corpo minhas regras?)

Este vídeo de um youtuber chamado Darwinian Thought, explica como o filme O Demolidor ilustra o mundo ideal dos reformistas sociais (legendado pelos tradutores de direita). A parte que eu mais gosto nesse filme é o discurso de liberdade individual de um líder da resistência (entre 10:55 e 11:55 no vídeo), confira:

MATRIX – 1999/2003

c0033_-_the_matrix_-_1999

Matrix (quem nunca ouviu falar?) é uma trilogia de filmes inspirado no livro “Neuromancer” (publicado em 1984), um romance que inaugurou uma nova categoria no gênero de ficção científica, chamada de “cyberpunk”, introduzindo os conceitos de “inteligência artificial” e “cyberespaço” ao contar as desventuras de Case, um ex-hacker em busca de cura após ter sido envenenado pelos patrões.

No filme Case seria Neo (personagem de Keanu Reeves), o enredo fala de um futuro onde existe a Matrix. Uma espécie de alucinação coletiva digital na qual a humanidade se conecta. No filme Matrix, a raça humana nada mais é do que fonte de energia para as máquinas, os humanos estão conectados em um tipo de incubadora e tudo que vivem são sonhos gerados por elas, a energia gerada pelo corpo humano através da atividade cerebral é o que alimenta o mundo real dominado pelas máquinas.

Matrix foi escrito como uma trilogia: Matrix, Matrix Reloaded, Matrix Revolutions. Seu sucesso no cinema marcou uma geração. E qual a relação com o esquerdismo? Ora bolas, o Agente Smith é a copia fiel da KGB comunista, assim como da Gestapo nacional socialista do 3º Reich. O próprio conceito de “Matrix” seria o mesmo conceito do partido único. E o ser humano sendo apenas uma parte do coletivo, sem direito a propriedade e liberdade individual.

EQUILIBRIUM – 2002

 equilibrium

Numa mistura de “1984”, “Farenheit 451”, “Admirável Mundo Novo” e “Matrix”, a história se passa em um futuro distópico, após uma terceira, e destruidora, guerra mundial. A sociedade é controlada por um regime totalitário, que obriga a população a tomar uma droga chamada Prozium que anestesia emoções, prevenindo tensões sociais e proíbe a população de apreciar a literatura e arte como um todo.

A grande sacada, anti-esquerdista do enredo é a de que reformistas sociais concluíram que a humanidade jamais poderia sobreviver a uma 4ª Guerra Mundial e que a natureza volátil dos humanos não podia mais ser exposta. Então uma ramificação da lei foi criada, o Clero Grammaton, cuja única tarefa é procurar e erradicar a real fonte de crueldade entre os humanos: a capacidade de sentir, pois há a crença de que as emoções foram culpadas pelos fracassos das sociedades do passado.

John Preston (Christian Bale), é um membro da instituição que mantém a ordem e para de tomar o remédio e logo começa a questionar isso tudo, até mesmo a existência do Grande Líder (similar ao Grande Irmão de 1984). O filme é bem melhor do que Matrix, apesar de não possuir a mesma fama, sugiro que assista e tire suas próprias conclusões.

Conclusão

Então deu pra reparar como o discurso da esquerda é totalmente distópico? Vejamos alguns exemplos:

  • liberação das drogas (Equilibrium e Admirável Mundo Novo)
  • oposição à família tradicional (Admirável Mundo Novo, Cântico, 1984)
  • desmilitarização da PM ( O Demolidor)
  • coletivização forçada (Admirável Mundo Novo, Cântico, 1984)
  • censura (Admirável Mundo Novo, Cântico, 1984, Farenheit 451, O Demolidor, Equilibrium)
  • estado totalitário;partido único (Admirável Mundo Novo, Cântico, 1984, Farenheit 451, Planeta dos Macacos, Demolidor, Matrix, Equilibrium)
  • veganismo, vegetarianismo (O Demolidor)
  • politicamente correto (O Demolidor)
  • perseguição e extermínio de dissidentes (toda distopia cita isso)

Bem, acho que por aqui já basta, porque se eu me empolgar talvez acabe escrevendo um livro mesmo sobre o tema, afinal são tantas distopias incríveis já produzidas, infelizmente, alguns “seres iluminados” não se contentam (e nem contentaram) em mantê-las no cinema e na literatura.

Clayton de Souza

Sou apoiador da Direita Sergipana na cidade de Tobias BarretoSE, tenho vários artigos postados no blog da Direita Sergipana, 04 livros publicados e sou responsável pela página Liberal/Conservadora “Atlante Online”.

2 comentários em “Distopias – delírios da esquerda na ficção

  • 18 18-03:00 julho 18-03:00 2017 em 15:24
    Permalink

    Se eu entendi bem, então você está dizendo que as distopias retratam o sonho Esquerdista de comandar o mundo, mas que no fim vai tudo por água abaixo, porque não se sustenta? 😀

    Se for isso, fecha bem de frente com o resultado que encontrei no meu TCC ao analisar o discurso ideológico distópico.. hehe * – *

  • Pingback:O problema da “Burrocracia” no Brasil – DIREITA SERGIPANA

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: